Considerações sobre Fantasia: Repensando a Trilogia Matrix



Faz um bom tempo que a trilogia Matrix me incomoda (talvez mais de uma década visto que Matrix: Revolutions saiu em 2003). Só que eu nunca elaborei bem isso. Mas eis que eu me lembrei de uma coisa: eu tenho um blog! Isso significa que eu posso escrever minhas idiotices nele.

A reclamação comum é que Matrix 2 e 3 nunca deviam ter existido, que o primeiro é uma jornada do herói muito bem-feita e deveria ficar por isso mesmo. Por mais que eu ache uma crítica válida, é também preguiçosa. É o mesmo que dizer "por que fazer mais, quando podemos fazer menos?", sério?!!

O negócio é o seguinte: o primeiro filme fez uma jornada de herói clássica, beleza. O segundo filme mostrou um twist da jornada do herói: foi uma jornada falsa. As máquinas intencionalmente criaram um Salvador para o seu Apocalipse, daí elas controlavam os dois lados da moeda. É um conceito conhecido como quinta coluna: o inimigo que você está lutando do lado de fora, já está dentro.

Por boa parte do segundo filme, os humanos são mais robóticos do que as máquinas, obedecendo instruções para ir de cá para lá. O Merovingian até diz isso explicitamente. Até o fato que a Oráculo dá pequenas guloseimas para o Neo sempre quando ela o encontra (e o primeiro é um maldito Cookie! não podia ser mais na cara) significa que ela está rastreando o progresso dele, para ver se ele está nos eixos. E a primeira dica deveria ser que o Neo é diferente dos outros, por estar mais preocupado com a Trinity em particular do que com a Humanidade em geral.

É no terceiro que a coisa desanda. Sem saber para onde ir, eles repetem a jornada do herói de novo. Ele tem que derrotar a versão viral do Agente Smith e pronto. Cadê aquela história do Escolhido ser uma criação das máquinas? As máquinas não tinham nenhum salvaguarda para isso?

Na minha compreensão, para um filme que agrega questões míticas e de hacking, a trilogia em geral trata pouco de questões míticas e hacking. Parte disso é a ideia de simplificar para a audiência, o que é sempre uma péssima ideia (clarificar é bom, simplificar é terrível). Inicialmente os humanos deveriam servir de unidades de processamento para as máquinas, não bateria. O corpo humano é uma péssima bateria, mas o cérebro humano é um computador muito interessante. Então não me admira que o terceiro filme tenha sofrido por causa disso também.

Aqui vai um pouco de Budismo pop: a ideia principal do Buda é por em movimento a roda de Dharma, quebrar o ciclo eterno de sofrimento. Para isso, é preciso que Buda oferecesse o conhecimento dele, sua iluminação de volta para a humanidade. Neo não fez isso! Quando ele foi ver a Oráculo pela primeira vez, lá existiam um tanto de potenciais, que exibiam maior controle sobre a Matrix do que qualquer outra pessoa, exceto o próprio Neo. Ele deveria ter reunido os potenciais como seus primeiros "discípulos", como uma forma de hackear o sistema. Por que apenas um Escolhido? Os filmes nunca refletem sobre este preceito, assumindo que ele é inquestionável, o que nega a capacidade de reflexão, que é tão particular aos seres humanos.

Penso que os discípulos de Neo é que deveriam ser os responsáveis por acabar com o agente Smith. Seria até simbolicamente interessante. Enquanto Smith representa as máquinas (uniforme, mera reprodução de um sistema), os humanos seriam uma coleção de indivíduos, cada um com a sua compreensão da Matrix e manipulando-a à sua maneira.

Ao mesmo tempo que eles combatem Smith dentro da Matrix e o exército defende Zion, Neo vai enfrentar as máquinas diretamente. Seria particularmente interessante se o combate de neo fosse realizado simultaneamente no físico e virtual (no mundo físico desabilitando máquinas e no virtual com o já manjado kung-fu do filme). A resolução do combate seria a libertação da Matrix do controle das máquinas, deixando os humanos despertos, não-despertos e programas separados deles. A sobrevivência de Neo poderia continuar um mistério, pois como ele saiu dos parâmetros da Oráculo ela não podia mais prever tão facilmente seus passos.

Bom, estas são as minhas ideias gerais, os roteiros precisariam de muitas mudanças para que isso ficasse bom, mas não acredito que seria inviável. Até a próxima.