Resenhas, Pretensão e o Princípio de Pareto


Na internet existe uma cultura razoavelmente grande de pessoas que são críticas de jogos/cinema/livros/quadrinhos/etc. Essa talvez seja a espinha dorsal da "cultura nerd" dos dias de hoje. E eu meio que faço parte dela. Uma parte microscópica e irrelevante, mas uma parte mesmo assim.

E por mais que eu deva iniciar dizendo que eu não sou completamente imune a isso, existe um fenômeno muito comum que parece atacar pessoas que criticam coisas: este fenômeno é o da pretensão. Que é basicamente achar que você sabe alguma coisa só por que você tem uma opinião e a divulga na internet.

O lugar em que eu vejo isso ocorrendo com mais frequência é no mundo dos filmes (o que não quer dizer que seja de fato o campeão dos esnobes, só os esnobes mais aparentes). Vejo isso cada vez que alguém fala como só existiu o primeiro filme do Matrix ou cita qualquer linha de diálogo do Anakin nas prequels.

Sim, se você detecta falhas, inconsistências, etc na mídia que você está analisando, é OK falar sobre elas. Também é OK falar de um jeito irônico ou engraçado. Mas nunca sob o ponto de vista que você sabe melhor. Críticos por definição não sabem o que é ruim ou melhor. Eles sabem uma vez que alguém se deu o trabalho de criar e mostrar para eles.

Existe por exemplo a fórmula hollywoodiana, que pode ser a razão principal de filmes em geral serem tão homogêneos. Ninguém de repente surgiu com esta fórmula, filmes foram feitos de diversa maneiras até que viram que, se fizerem de um certo jeito, ressoa melhor com a audiência. Suspeitam de Casablanca como o primeiro filme a acertar a fórmula. Pensem num chef testando diversas combinações de temperos até que um faz sucesso.

O que eu estou falando aqui é que existe um vínculo entre criação e crítica que, por óbvio que seja, não pode ser esquecido: crítica é um derivado da criação. E sendo um derivado da criação ele quase invariavelmente precisa de menos criatividade, habilidade e recursos para ser realizado. Isso é fácil de provar.

É simples, faça o seguinte: critique uma animação por uma hora. Pode ser um curta, de cinco minutos. Agora FAÇA um curta de animação no mesmo tempo. Uma pessoa razoavelmente competente em ambas as áreas teria, ao final do tempo, terminado a crítica e feito no máximo um ou dois segundos de animação. E temos que levar em conta que a maioria dos críticos não sabe criar o que criticam. Sendo que a maioria dos que criam sabe criticar, por que criticar faz parte do ato de criar.

Vamos levar em consideração um dos maiores críticos de cinema da história, Roger Ebert. Por mais que ele seja louvado como crítico, seu histórico como escritor para scripts é no mínimo inexpressivo. Eu não sei nada da vida deste homem (que terminou em 2013, RIP) mas eu aposto que se ele tivesse a capacidade de fazer um script excelente, ele faria. Mas vendo a sua lista de melhores filmes por ano, ele colocou Dark City em 98. Então má pessoa ele não era :).

E o princípio de Pareto? O que ele tem com isso? Estamos falando basicamente da regra de 20/80. 20% dos clientes de uma loja são responsáveis por 80% do lucro, 20% dos erros de código são responsáveis por 80% das falhas de software, 20% da população possui 80% da riqueza, etc. Estas são claro, aproximações. Isso quer dizer que apenas uma pequena parte da produção de alguma coisa é espetacular ou fora da média, o que até é meio óbvio se pensarmos bem.

Isso quer dizer que em qualquer momento da história, em qualquer área da produção criativa, o esperado é ver um mar de mediocridade com alguns pontos de genialidade. Quantos dramaturgos do século XVI você conhece além de Shakespeare? Quantos músicos clássicos além de Beethoven, Mozart e Bach? De cabeça, é claro, pesquisar no google não vale. Então cada vez que um crítico de <insira a sua arte aqui> dizer que falta criatividade e talento, que tudo é homogêneo e medíocre, boa parte disso pode ser explicado pela realidade de que CRIAR É DIFÍCIL.