Análise do trailer de Ghost in The Shell

Ghost in The Shell Kusanagi

Mais uma adaptação Hollywoodiana no horizonte significa mais especulações. Portanto vamos adiante! Ghost In The Shell é um mangá que depois foi adaptado para a um anime e virou um clássico para quem gosta de anime e/ou cyberpunk. E também inspirou gente como o povo que fez Matrix. É claro, vale lembrar que Neuromancer de Gibson é o grande pai de toda essa joça.

Antes de começarmos, uma nota sobre traduções. No imdb o título está com o horrível e genérico "Vigilante do Amanhã". Que porra é essa? Especialmente com um dos animes que tiveram a tradução mais memorável. O original japonês é Koukaku Kidotai (攻殻機動隊) que traduz para "mobile riot police" ou "attack shell riot squad". Que seria algo como "Esquadrão tático da polícia". A tradução realmente pegou a essência do anime. Seu sucesso deve ser em parte por causa do título, que é tão evocativo.

Para quem gosta de assistir coisas, aqui vai a versão vídeo, um pouco mais resumida, da análise:


Para quem prefere ler, vamos por partes:

A estética:


Ghost in The Shell Kusanagi


No GiTS a cidade não parece tão agitada. Muito pelo contrário, por mais que seja uma metrópole muito avançada, as tomadas da cidade são muito serenas. Mas é claro, isto é um filme no <ano corrente> e precisamos de efeitos especiais. Curiosamente, desenhar uma cidade tão detalhada no anime original provavelmente foi mais difícil.

Ghost in The Shell cidade


Sinceramente, os hologramas no meio da cidade não me incomodam e ajudam a criar o clima cyberpunk. O único temor aqui é que o filme seja muito agitado, parando apenas para dar exposições redundantes. De resto parece bem próximo do original, nada mais me pareceu fora do lugar. Mas devo salientar que ainda não vi nenhum tachikoma.

A trama:


No trailer já aparecem várias cenas copiadas do anime.Eles colocaram bastante das cenas mais memoráveis do anime para que todo mundo pensasse "UAU! Vai ter isso e aquilo!". Mas a censura já mostra que vai ser uma versão muito mais segura. Obviamente sem mamilos e muito provavelmente sem uma certa cena em que Kusanagi arranca os próprios braços de tanto fazer força.

Algumas cenas parecem ter sido inspiradas em Innocence, o segundo filme da franquia. Os dois filmes são significativamente diferentes, não sei como essa mistura vai acabar.

Os poucos diálogos que apareceram indicam que será mais estereotipado. Para começar com Kusanagi. Scarlett Johansson parece interpretá-la muito mais suave. Por mais que Kusanagi seja contemplativa, ela também é muito severa e militarística. Também mudaram o lugar dela na trama.

Ghost in The Shell Kusanagi


Matoko nunca foi enganada sobre sua própria origem. Ela questiona sua própria existência, por que a sociedade evoluiu de tal maneira que fica difícil definir humanidade, identidade e individualidade. Dizer que ela foi enganada sobre sua criação é externalizar um conflito que é mais interessante se for interno. Se o anime consegue expressar isso, deveria ser ainda mais fácil no filme.

A Controvérsia


Então, contrataram a Scarlett Johansson para ser a Major Matoko Kusanagi (sendo que é provável que ela mude de nome, visto que no trailer ela só usa "Major"). Sinceramente isso não me interessa. Não estou interessado nas políticas de contratação de Hollywood. Somente dois pontos são relevantes. Adaptações e misturas culturais e o termo whitewashing.

O termo whitewashing em adaptação de mídias já existe e tem um sentido muito mais útil do que o atual (i.e. mudar a etnia de um personagem qualquer de sua original para a caucasiana). Significa remover as manchas, as máculas de personalidade para fazer um protagonista mais estereotipicamente bom. Um exemplo claro disso é o personagem Tyrion de Game of Thrones. No seriado ele é muito mais ético do que no livro. No livro, Tyrion não está acima de planejar assassinatos e transformar o corpo em carne para ensopados.

O segundo ponto é o de adaptações culturais. Mesmo mudando a etnia da protagonista (que cujo corpo é 100% sintético então, quem se importa?) muitas das referências visuais do filme ainda são asiáticas. É neste momento que devo referenciar duas obras: Blade Runner e Firefly.


Blade Runner

Ambas as obras usam temas asiáticos mesmo que o elenco principal não o seja. Por que? Por que sim! No caso de Blade Runner era bem possível que estivesse expressando o sentimento que a cultura asiática iria dominar tudo (que no caso parecia se referir mais aos tigres asiáticos do que Japão ou China, se me lembro das aulas de geografia). Em firefly, os personagens constantemente usavam kanji e algumas interjeições (provavelmente em chinês) sem ter uma real necessidade para isso, a não ser uma criada pela própria história.

firefly serenity

E só para arredondar as coisas, vamos tomar como contraexemplo: a adaptação de Attack on Titan. É um ponto na trama, muito mais relevante do que em GiTS, que a última cidade mistura todas as raças e japoneses são raros. Mas como é meio difícil arranjar atores ocidentais no Japão, temos este resultado:

Attack on Titan

Resumindo: a hipersensibilidade atual não é uma crítica válida. Conta como observação ou preferência, mas nunca como uma marca negativa numa obra. Qualquer tipo de "pureza cultural" restringe desnecessariamente o tipo de histórias que podem ser contadas.

Ufa! O último trecho foi quase um post à parte. Bom, é só isso e até a próxima.

Referências:
 P.S.: Estou aguardando a adaptação japonesa de Neuromancer.